Fonte:
Folha de São Paulo
Data: 06 de janeiro de 2008
Interatividade com sistema
digital muda propaganda na TV
Com a chegada dos conversores com o programa
Ginga, será possível comprar produtos usando o
controle remoto
Tatiana Resende
Os consumidores brasileiros mal se acostumaram com o
"e-commerce" e já vão se deparar neste ano com o "t-commerce",
comércio eletrônico que será viável por meio da TV
digital, com as compras ao alcance de um clique no
controle remoto.
Já é senso comum que a interatividade na TV aberta
vai mudar a forma de fazer propaganda, mas resta
saber como as emissoras vão adaptar o modelo de
negócio, baseado em audiência, a uma nova realidade,
que vai permitir tanta interação com um comercial
que pode desviar completamente a atenção do
seguinte.
As emissoras captam cerca de 60% dos investimentos
em publicidade no país, o que comprova que qualquer
mudança nessa mídia faz toda a diferença para os
anunciantes.
"A TV paga tem um modelo de negócio mais fácil de
adaptar à interatividade", diz Antonio João Filho,
vice-presidente da Associação Brasileira de TV por
Assinatura. Em 2006, 84% do faturamento das
prestadoras veio da mensalidade dos assinantes, que
começaram a se familiarizar com a interação
comprando filmes pelo pay-per-view. A TV paga,
porém, responde por menos de 4% dos investimentos em
publicidade.
O que ainda parece um sonho futurístico vai estar
disponível em breve para os consumidores, pelo menos
para os mais abastados nas cidades que recebem o
sinal digital, disponível agora só na Grande São
Paulo e, em todo o país, até 2013. Os primeiros
conversores com o software Ginga, aptos à
interatividade plena (envio de dados às emissoras),
devem chegar às lojas neste semestre, provavelmente
com os comerciais interativos.
"As agências e os anunciantes vão querer correr para
serem os primeiros, porque isso transmite uma imagem
de modernidade", afirma Dalton Pastore, presidente
da Associação Brasileira de Agências de Publicidade,
sem detalhar o que já está em teste. Para ele, o que
a tecnologia vai permitir que o telespectador faça é
só um lado da moeda. "E o menos importante. Muito
mais importante é o que ele vai querer fazer."
Pastore ressalta que os consumidores estão
acostumados "a comprar as coisas indo ver, e isso
não vai mudar em 2008". A questão é que não dá para
prever o alcance de uma mudança dessa magnitude no
meio de comunicação mais popular do país, presente
em 93% dos lares, segundo dados do IBGE.
No entanto, como frisa Ricardo Monteiro, presidente
do Comitê de Gestão de Negócios de Mídia da
Associação Brasileira de Anunciantes, "a efetividade
da lembrança de um comercial de TV tem caído de
forma vertiginosa, e a audiência não alcança mais os
patamares de poucos anos atrás". Segundo ele, 65%
das pessoas que viam um comercial, em 1999,
lembravam da marca. Em 2006, esse número foi de só
19%. "É interesse de todos procurar novas formas de
comunicação."
Roberto Franco, presidente do Fórum de TV Digital,
lembra que o padrão atual de modelo de negócio "foi
construído ao longo de 60 anos de história da
televisão". Logo, só o tempo vai definir o formato
adequado à era digital. "Ninguém vai sair com um
modelo pronto, acabado e campeão de mercado."
Para Ana Lúcia Fugulin, professora da Escola
Superior de Propaganda e Marketing, antes da
interatividade, o principal atrativo serão as
plataformas móveis, com celulares e aparelhos em
meios de transporte com a mesma qualidade de
recepção dos pontos fixos. Aliás, com tantas formas
de assistir à TV, ela pondera que o telespectador
vai querer também ampliação do conteúdo exibido. "O
público já está mais exigente e vai ficar ainda
mais."