Fonte:
O Estado de São Paulo
Data: 08 de Março de 2008
Patentes emperram TV
interativa
O sistema de interatividade Ginga,
criado no Brasil, usa softwares internacionais
que exigem pagamento
Renato Cruz
Um problema jurídico impede o lançamento da TV
digital interativa no Brasil. Blocos de software
que fazem parte do Ginga, sistema de
interatividade criado por pesquisadores locais,
podem exigir pagamento de royalties para a
empresa americana Via Licensing. “As
especificações técnicas do Ginga já estão
prontas desde 2 de dezembro”, disse Paulo
Henrique Castro, coordenador do Módulo Técnico
do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital
Terrestre (SBTVD).
A Via Licensing é dona de patentes do MHP,
software de interatividade europeu, e também do
OCAP, americano. O Ginga adotou o GEM, bloco de
software que faz parte do MHP e do OCAP,
exatamente para se tornar compatível com as
tecnologias internacionais. Esta semana, porém,
o Fórum do SBTVD fechou acordo com a empresa
americana Sun Microsystems, criadora da
linguagem de programação Java, para desenvolver
um substituto do GEM em software livre, que não
exige pagamento de royalties.
Na Europa, os fabricantes têm de pagar US$ 1,75
por equipamento vendido à Via Licensing, e cada
emissora paga até US$ 100 mil por ano,
dependendo do número de residências que alcança.
“Os radiodifusores na Itália estão furiosos,
porque o pagamento não era previsto quando
adotaram a tecnologia”, afirmou Castro.
A interatividade vai permitir, na TV aberta,
serviços parecidos com os da internet, como
escolha de câmeras e trilhas sonoras, clicar em
imagens para obter mais informações, compras e
troca de mensagens com outros espectadores.
Não existe no mercado nenhum conversor (também
chamado de set-top box) ou televisor com o
Ginga. Segundo o professor Luiz Fernando Soares,
da Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro, um dos pais do Ginga, os lançamentos
podem acontecer no segundo semestre.
Em 2 de dezembro, quando a TV digital estreou no
Brasil, os pesquisadores que criaram o Ginga
diziam que a tecnologia estava pronta, enquanto
a indústria falava que não. “Existe muito
ruído”, disse o professor Guido Lemos, da
Universidade Federal da Paraíba, que liderou os
trabalhos do Ginga-J, parte do sistema que usa o
GEM. “Estão querendo transformar o Ginga-J numa
Geni.” Segundo Lemos, não houve interatividade
na estréia da TV digital porque os equipamentos
ficaram prontos um mês antes, e vieram cheios de
problemas.
O Ginga-J tem como base a linguagem Java, da
Sun, que tem o código aberto e não exige o
pagamento de licenças. “Nosso trabalho vai durar
de 90 dias a quatro meses”, disse Luiz Maluf,
diretor da Sun.